ALINHAMENTO DA TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
COM A ESTRATÉGIA EMPRESARIAL: A PERCEPÇÃO
DAS MAIORES ORGANIZAÇÕES GAÚCHAS
- Segunda Parte -
A busca por transmitir mais segurança e convicção
aos profissionais de gestão e, em especial, aos
profissionais de informática quanto à real
importância que a tecnologia da informação
pode ter para suas organizações foi o motivador
primeiro e estímulo desta pesquisa. Não
havia dúvida na mente do pesquisador de que a TI
representasse papel fundamental para a estratégia
empresarial e obtenção de vantagens competitivas
na organização. Transformar tal convicção
em fatos incontestes, ou pelo menos, sustentados em evidências,
foi o desafio. O caminho percorrido neste propósito
valeu-se preliminarmente de um amplo estudo do referencial
bibliográfico produzido sobre o tema. Não
faltou material para tal. O assunto motiva, estimula e
desafia muitos outros profissionais e pesquisadores e
vários deles escreveram sobre o mesmo. Dos insumos
recolhidos desenhou-se o título que uniu os interesses
expostos: "Alinhamento da tecnologia da informação
com a estratégia empresarial". Alinhamento
é o termo que, primeiramente utilizado no âmbito
acadêmico, sintetiza o propósito de tornar
a TI um fator crítico na moldagem da estratégia
empresarial. Objetiva a união sinérgica,
tão tramada que indissolúvel, tão
premente que inconsciente, da TI com a estratégia
empresarial. A coleta de textos de produções
científicas e da imprensa especializada permitiu
traçar um panorama histórico da evolução
do tema. Objetivou-se, etapa por etapa, circunscrever
a amplitude do assunto. Desde os primeiros questionamentos
quanto a gastos em TI irrefletidos na produtividade organizacional,
passando pela modelagem e metodologia acadêmica
do alinhamento até aportar na idéia de que,
de fato, a TI é um dos mais poderosos meios para
agregar substanciais vantagem competitiva a um negócio
ou organização, desde que haja inequívoca
habilidade do homem (negociador, gestor e técnico)
em bem utilizá-la. Assim, será através
da habilidade compartilhada entre profissionais de gestão
e de informática (CEO e CIO) na condução
interligada da estratégia corporativa e da TI que
se poderá explorar o maior potencial de negócios
visualizado por seus executivos. As dúvidas que
porventura ainda assaltassem profissionais de informática
quanto à potencialidade da tecnologia que administravam,
poderiam ser assim superadas, através da sinergia,
integração e compartilhamento com a estratégia
empresarial. Até que ponto, no entanto, estariam
as organizações do microcosmo empresarial
vivenciado pelo pesquisador, aptas a tratar a questão
dessa forma? Não eram airosas as expectativas quanto
a sua capacidade. Para conhecê-la realizou-se a
pesquisa. Supôs-se que entre as maiores organizações
do Rio Grande do Sul, formalmente orientadas por estratégias
empresarias, seriam encontradas fortes evidências
de uma dissociação entre os investimentos
definidos pela estratégia empresarial e os investimentos
realizados em TI. Os profissionais envolvidos neste processo,
CEO e CIO, não comungariam interpretações
comuns quanto ao papel da TI na estratégia empresarial.
Esta foi a hipótese avaliada. Sustentando-se em
questionários aplicados e entrevistas realizadas
com os principais profissionais de gestão e informática
de cinco das maiores empresas regionais, obteve-se um
conjunto de informações que não corroboraram
a suposição lançada. Considerando
os limites que a metodologia e instrumentos de pesquisa
impõem e o natural viés introduzido pelos
entrevistados na tentativa de responder ao "certo"
em vez de externar sua real percepção quanto
à situação existente na empresa,
reduziu-se ênfases e posições extremas
apresentadas. Ainda assim remanesceram posições
que refletem a média da percepção
dos entrevistados e que denotam uma abrangência
possível de generalizar com alguns cuidados. Utilizando-se
forma semelhante à expressa no corpo desse relatório
apresentam-se, a seguir, um conjunto das mais expressivas
afirmações que sintetizam os resultados
da pesquisa. Principais características constatadas
através dos resultados da pesquisa CEO ·
Tem compreensão menos apurada de TI quando comparada
com outras disciplinas de gestão. · Sente
algum constrangimento em tratar do tema TI com o qual
não tem intimidade. · Metade da vida profissional
na função. CIO · Não tem predominantemente
formação especializada em TI. · Não
considera que a ausência de formação
especializada dificulte suas atividades. · 1/3
da vida profissional na função. ·
Pouco distanciamento hierárquico do CEO. Características
quanto ao planejamento estratégico formal ·
Missão e objetivos organizacionais formulados de
forma clara. · Há dificuldade em dar a conhecer
missão e objetivos a todos na organização.
· Os processos do planejamento estratégico
não estão sustentados em documentos formais
detalhados. · Existem indicadores pouco detalhados
para medir atingimento de objetivos estratégicos.
· É precisa a quantificação
dos investimentos necessários a consecução
da estratégia empresarial. · Delineia-se
o reconhecimento da necessária capacitação
dos recursos humanos para lidar com questões referentes
à estratégia e TI. Características
quanto aos investimentos em TI · Aos CIO esteve
mais clara que aos CEO a presença dos investimentos
em TI nos planos de ação dos objetivos e
estratégias empresariais. · É precisa
a quantificação dos investimentos em TI.
· A subjetividade dos resultados a conquistar com
os investimentos em TI é muito expressiva. ·
Não há preocupação explícita
em definir critérios e indicadores que avaliem
o atingimento dos resultados dos investimentos em TI.
· Reconhece-se a existência de profissionais
capacitados na organização para gerenciar
de forma sinérgica processos de mudanças
que envolvam estratégia e TI. Características
quanto à importância e influência da
TI · Alta administração tem consciência
da importância de identificar novas oportunidades
para a organização. · CIO considera
que as oportunidades identificadas pela alta administração
não são tão inovadoras quanto imaginam
CEO. · Alta administração tem consciência
da importância de identificar novas oportunidades
suportadas por TI. · CIO considera que as oportunidades
identificadas pela alta administra-ção suportadas
por TI não são tão inovadoras quanto
imaginam CEO. · CIO diverge de CEO no que se refere
ao direcionamento dos investimentos em TI. CIO vê
manutenção das tecnologias já existentes,
CEO vê mudanças nos processos-chave da organização.
· Preocupante constatar que o menor envolvimento
de CEO e CIO no acompanhamento dos processos de mudança
se dá naquelas que envolvem recursos humanos. ·
CEO e CIO identificam juntos novas oportunidades e designam
investimentos em TI para tais oportunidades. ·
A autocrítica do CIO quanto a sua capacidade de
contribuir para identificar oportunidades é alta,
não se crê totalmente habilitado. ·
Hipótese da pesquisa que previa dissociação
entre investimentos definidos pela estratégia empresarial
e os investimentos realizados em TI decorrência
do despreparado e baixo nível de autoridade do
CIO não se confirmou. · CEO e CIO consideram
o "alinhamento" existente em suas organizações.
Características quanto ao retorno dos investimentos
em TI · Indiferença demonstrada anteriormente
quanto a indicadores para validar investimentos em TI
deveria refletir-se aqui. Não foi o que ocorreu.
· Supõe-se que questões referentes
a indicadores foram respondidas sustentadas em raciocínio
lógico e não na efetiva percepção
do entrevistado. · CEO percebem que os resultados
de investimentos em TI na sua grande maioria são
positivos. CIO foi bem menos generoso. Características
quanto a práticas adotadas · Investimentos
em TI decorrem dos objetivos e estratégias organizacionais.
· Para CEO investimentos decorrem da pressão
competitiva, da "necessidade" de ganhar/manter
competitividade. · CIO percebe que maioritariamente
a limitação de investimentos em TI se dá
pela capacidade da organização em realizá-los.
Há significativa divergência de percepções
entre CEO e CIO. · Possibilidades: CIO mais técnico
e ainda distante do negócio; CEO gestor característico
de empresas familiares. Necessário avançar
um pouco mais na análise. · CIO demostraram
maior preocupação em comparar seus dispêndios
em TI com concorrentes/parceiros de negócios do
que CEO. Trata-se de uma preocupação previdente
do CIO em munir-se de indicador de mercado para balizar
suas ações. · Investimentos em TI
cobrem além das inovações a manutenção
dos sistemas de TI atualmente em uso. Características
quanto a extrapolação · Para CEO
e CIO a estratégia organizacional inclui considerações
quanto a TI, a tal ponto de se caracterizar um "alinhamento"
da TI com a estratégia empresarial. · Não
se firmou convicção quanto à possibilidade
de práticas adotadas pelas organizações
da amostra servirem de paradigmas ou benchmark para terceiros.
Fonte: dados do autor Previa-se encontrar dissociação
entre investimentos definidos pela estratégia empresarial
e os investimentos realizados em TI. Não se constatou
tal desencontro. Estimava-se encontrar um CIO despreparado
e com baixo nível de autoridade, o que não
se confirmou. Para CEO e CIO a estratégia organizacional
inclui considerações quanto à TI,
a tal ponto de se caracterizar uma "alinhamento"
da TI com a estratégia empresarial. CEO e CIO comungam
interpretações comuns quanto ao papel da
TI na estratégia empresarial. CEO e CIO afirmativamente
consideram que o "alinhamento" existe em suas
organizações. Observou-se uma coerência
expressiva de percepções em diferentes questões
entre CEO e CIO. Esta coerência pôde ser aquilatada
por diversas respostas similares em vários pontos
da pesquisa. Somaram-se argumentos para derrubar a suposição
preliminar da pesquisa. A hipótese da pesquisa
pôde ser rejeitada. Pode-se afirmar, em resposta
à pergunta da pesquisa que: As maiores empresas
gaúchas alinham, segundo o ponto de vista de seus
principais executivos, seus investimentos em TI com a
estratégia empresarial. Ainda assim, observou-se
que os CIO demonstraram maior preocupação
em comparar seus dispêndios em TI com concorrentes/parceiros
de negócios do que CEO. Por que esta preocupação?
Em mais de um ponto da pesquisa registrou-se a baixa importância
que atribuíam CEO e CIO a indicadores que mensurassem
os resultados de investimentos em TI. Estaria o CIO de
forma previdente a munir-se de indicadores de mercado
para justificar suas ações? A TI, mercê
de sua onipresença no mundo dos negócios,
impôs-se a quase todas as organizações.
Quer se deseje ou não, ela lá estará,
por opção ativa da empresa ou por imposição
reativa do mercado. Especialmente nas grandes organizações
seu uso tornou-se compulsório. Utilizá-la
proveitosamente é o melhor que podem fazer executivos
gestores. Diante de tal coerção, perde muito
a razão medir seu retorno. Diagnosticou-se isso
na pesquisa. Por que então a precaução
do CIO em munir-se de dados para justificar retornos de
investimentos em TI? Considera-se que a insegurança
vivida pelos profissionais da área em tempos anteriores
moldou-lhe a preocupação com o negócio.
Em vez de assumir uma cômoda posição
propiciada pelo momento, aperfeiçoa-se e aprofunda-se
no conhecimento do negócio, habilitando-se a bem
conduzi-lo. "Até há algum tempo, os
jovens com potencial queriam trabalhar com marketing ou
vendas porque eram degraus para a presidência",
diz Dominique Einhorn, sócio da empresa de recrutamento
de executivos Heidrick & Struggles em reportagem da
revista Exame de 22 de setembro de 1999. "Hoje os
caras jovens estão se sentindo atraídos
por esse perfil mais generalista da posição
de CIO, que deverá se tornar um celeiro de presidentes
de empresas." Será esta a motivação
do novo CIO? O CIO sobe na escala evolutiva da hierarquia
organizacional porque as empresas percebem que a TI vai
muito além de automatizar o negócio. Os
CIO começam a ser procurados para usar a TI para
mudar a própria maneira como as empresas fazem
negócio. Não só para fazer melhor
o que elas já faziam, mas para fazer de um jeito
diferente, mais eficiente e competitivo. Essa nova percepção
coloca o CIO na linha sucessória de muitas organizações.
"O executivo de tecnologia de hoje tem de ser alguém
que pensa com a cabeça do dono da empresa",
diz Robert Wong, diretor-geral no Brasil da empresa de
recrutamento de executivos Korn/Feny, na mesma reportagem
de Exame. Cita recente pesquisa do jornal londrino Financial
Times que entrevistou trezentos e quarenta diretores de
tecnologia para identificar as tendências na evolução
do cargo de CIO: · Seu papel passa do planejamento
técnico e montagem dos sistemas para o planejamento
estratégico; · Na esfera das decisões
estratégicas, muda a maneira como se relaciona
com os colegas de diretoria. Suas opiniões são
cada vez mais ouvidas; · Seu perfil inclui tanto
competências técnicas quanto conhecimentos
de finanças, marketing e planejamento estratégico;
· Se envolve cada vez mais com os clientes, acompanhando
as visitas feitas pelos vendedores e pelo pessoal de apoio.
· Senta-se à mesa na hora das decisões
importantes de diretoria. Tem a mesma estatura que os
outros diretores e responde diretamente ao presidente
da empresa. Nas entrevistas com os CEO gaúchos
pôde-se constatar que esses reconhecem esta evolução.
Diagnosticou-se que depositam um elevado nível
de confiança em seus executivos de TI. Apesar de
sua menor familiaridade com as coisas da informática
e da natural insegurança que enfrentam ao tratar
da questão, dão o espaço a seus CIO
para condução das tarefas de TI. Com esta
permeando praticamente todas as atividades da organização
torna-se natural uma maior proximidade entre os dois executivos
o que colabora para um maior envolvimento do CIO nas decisões
corporativas. Tendo se preparado, estendendo seu campo
de ação além dos limites da tecnologia,
conscientizado em permanentemente visualizar o negócio
e estando mais próximo do poder decisório
organizacional, naturalmente ascende o CIO à condição
de aspirante a CEO. Isso ocorrendo seria permissível
supor que natural seria o "alinhamento". Na
mesma cabeça, negócio e TI, ao natural integrados
em um conceito de negócio único. Tal nível
de alinhamento vai muito além dos propósitos
até aqui expostos. No comportamento gerencial executivo
internalizado estaria o potencial da TI, não mais
necessário seria agregá-lo, estimulando
propostas de "alinhamento" - este intrinsecamente
existiria. Seria a redenção do pensamento
de Strassmann quando referencia que a excelência
empresarial tem raízes em pessoas preparadas que
entendem o que fazer com o potencial da TI. Naturalmente,
se iria reconhecer a TI como uma catalisadora, que na
mão de pessoas capazes pode agregar substancial
vantagem competitiva a um negócio ou organização.
O alinhamento como hoje o almejamos será coisa
do passado, tão integrado que indistinguível
na estratégia organizacional.