ALINHAMENTO DA TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
COM A ESTRATÉGIA EMPRESARIAL: A PERCEPÇÃO
DAS MAIORES ORGANIZAÇÕES GAÚCHAS
- Primeira Parte -
Profissionais de gestão e especialmente profissionais
de informática, não raras vezes, ficam pouco
à vontade para responder questões referentes
à contribuição que a tecnologia da
informação - TI, de fato, traz às
organizações. Por que este incômodo?
Algumas de suas contribuições são
por demais evidentes. É difícil imaginar
um sem-número de serviços e negócios
hoje sem sua presença. Não haveria como
viabilizá-los, em sua dimensão atual, sem
o forte aporte da TI. Antônio Carlos M. Mattos (1996)
cita, entre outros, os seguintes impactos da TI nas organizações:
· Aumento da capacidade de tratamento de informações;
· Rapidez na obtenção das informações;
· Confiabilidade dos resultados; · Integração
de subsistemas; · Maior controle sobre a organização;
e · Economia [!]. Que dúvidas podem então
sobreviver? Estas surgem pois as questões, em geral,
não se referem a contrapor o "uso" com
o "não uso" da TI, mas sim, "quanto
usar" em um determinado momento ou situação
para que, sem dúvida, a contribuição
da TI para o negócio seja a mais otimizada. Para
este foco da interrogação, inúmeros
questionamentos emergem. Convém enfatizar o fato
de que os fornecedores da TI sempre buscaram caracterizá-la
como propulsora da modernidade. E modernidade era convenientemente
associada, por estes, a resultados positivos de negócios.
"Ajudando você no uso da tecnologia da informação
para conquistar seus objetivos de negócios"
é o título de capa de um folheto publicitário
da IBM, de 1997. Como este, milhares de outros nesta mesma
linha de sugestão, poderiam ser citados. Assim,
para garantir resultados é necessário ser
moderno, e ser moderno significa investir na TI, aprimorando
e transformando o negócio. Na prática, esta
relação jamais foi diretamente observada
como apregoada pelos fornecedores de TI. Dado os altos
custos que sempre caracterizaram e continuam a caracterizar
os investimentos na TI, e a não amenizada, mas
sim ampliada dificuldade na busca por resultados, muitos
questionam: seria a TI o caminho para conquistar os objetivos
de negócios? Investimentos em TI contribuem para
o resultado da empresa? Quanto se deve aplicar em TI?
Como devem ser aplicados estes recursos? Mattos refere,
no impacto econômico da TI, que apesar de demonstrável
a existência de "break-even point a partir
do qual é mais econômico executar uma rotina
em computador do que manualmente", não é
possível estender este raciocínio de forma
descuidada. "Há casos em que os custos aumentam..."
Tom Forrester e Perry Morrison Apud Mattos apontam casos
sérios de deseconomias como o uso de computadores,
chegando a afirmar que há situações
"onde é difícil avaliar se haverá
economias de fato, como [no caso] a automação
bancária [!]". Logo a automação
bancária, que sempre foi citada como um caso clássico
e inquestionável de sucesso na aplicação
da TI. O assunto é absolutamente polêmico
e tem sido tema de acalorados debates, inclusive no meio
acadêmico. Radicalizações, entre todos
os envolvidos, apesar de frágeis por radicais,
têm sido constantemente utilizadas em debates nas
organizações, quando se trata de orçar
os investimentos para TI. Na academia o assunto é
inconcluso, e muito há de se escrever sobre o tema
no futuro próximo. Paul A. Strassmann, um dos expoentes
na área, prometeu ao lançar seu último
livro, The Squandered Computer, que este seria o primeiro
de uma série de três volumes que trataria
do assunto. Strassmann aconselha aos leitores que esperem
pela continuação antes de tomar planos definitivos
quanto aos investimentos em TI. Infelizmente, nas organizações,
a dinâmica dos negócios não permite
aguardar por Strassmann ou por qualquer outra melhor definição
acadêmica. As empresas adotam iniciativas pressionadas
pela necessária tomada de decisões nos negócios.
Atualmente, o sucesso nos resultados organizacionais,
fortemente associados a uma estratégia competitiva,
estão provavelmente concentrados num pequeno número
de atributos de desempenho que incluem velocidade, flexibilidade,
qualidade e custos. Todas estas quatro áreas de
enfoque estratégico são profundamente afetadas
pelo uso efetivo da TI para facilitar, aumentar e acelerar
a execução estratégica, como afiança
Mattos. No entanto, a visão tradicional do papel
da TI na estratégia competitiva ainda tem sido
em grande parte reativa - quer dizer, uma resposta para
a estratégia competitiva e processos de negócio
existentes, mas não um fator crítico moldando
aquela estratégia e processos. Uma abordagem mais
sensata seria posicionar a TI num papel pró-ativo
onde a estratégia competitiva não é
vista como definitiva, mas como algo que deveria ser desafiado,
estendido e talvez modificado, levando em conta tecnologias
e aplicações emergentes. O que se observa
em várias pesquisas, entre as quais a de C. Lawrence
Meador (1997), é que na maioria das empresas uma
estratégia de TI não existe de fato. Ao
invés, persistem os antigos planos diretores de
informática - PDI, as arquiteturas de aplicação/dados/tecnologia
e os processos de administração de Sistemas
de Informação Gerenciais - SIG, todos derivados
dos planos, processos e exigências do negócio
como existe hoje. Não há nenhuma direção
global ou filosofia para o uso na empresa da TI e nenhuma
sensação de que esta represente um papel
significante, determinando qual estratégia poderia
ser mais efetiva e lucrativa. Porém, a perspectiva
de que a TI é estritamente uma função
de apoio à estratégia competitiva começa
a ser revisada. Empresas líderes estão buscando
modos para explorar a TI, visando transformar seus negócios
básicos, aumentando as relações com
fornecedores e clientes, e criando oportunidades de novos
mercados. Meador, através de suas pesquisas, sugere
que os exemplos mais efetivos e sustentáveis do
uso aconteceriam quando a TI "estiver tecida na mesma
fibra da empresa. De muitas formas, a TI é mais
estratégica quanto mais mundana, tendo milhares
de impactos pequenos ao longo da empresa em lugar de um
colossal sucesso facilmente copiável". No
mundo acadêmico as iniciativas pioneiras de organizações
que buscam fundir a TI ao negócio passaram a ser
conhecidas como "alinhamento da TI com a estratégia".
Várias companhias, especialmente as transnacionais,
já associam suas ações em TI às
ações definidas por sua estratégia
empresarial, visando tornar o empreendimento mais competitivo
e lucrativo. As práticas adotadas nestas organizações
estão sendo utilizadas como paradigmas ou, no mínimo,
como referência para apoiar estratégias de
investimentos em TI. No decorrer de 1999 desenvolveu-se
uma pesquisa junto as principais empresas gaúchas
para analisar se estão alinhados os investimentos
em TI com os demais investimentos definidos pela estratégia
empresarial, a partir do ponto de vista dos principais
executivos do meio organizacional. As maiores organizações
gaúchas consideram que alinham seus investimentos
em TI com a estratégia empresarial? Examinou-se
como as cinco das maiores empresas de origem e sede administrativa
no Estado do Rio Grande do Sul destinam recursos para
investimentos estratégicos e de TI e se tais investimentos
estavam alinhados ou não. Foram entrevistados os
principais executivos envolvidos, os Chief Executive Officer
(CEO) e os Chief Information Officer (CIO). Objetivou-se
descobrir se estes profissionais conscientemente associavam
os investimentos em TI aos demais investimentos definidos
pela estratégia empresarial. Na percepção
destes profissionais a TI estaria tramada com a estratégia
empresarial? Considerando a inconclusividade do tema,
evidenciada pelos candentes debates que provoca, imaginava-se
encontrar divergências conceituais e de visão
entre CEO e CIO quanto à quantificação
e associação dos investimentos em TI aos
demais definidos pela estratégia empresarial. Supunha-se
que, mesmo naquelas organizações que tivessem
adotado processos de planejamento estratégico formais,
ainda vigorava uma dicotômica percepção
entre os profissionais quanto às designações
de investimentos em TI e os demais definidos pela estratégia
empresarial. Se a hipótese fosse confirmada, sendo
as empresas gaúchas investigadas as mais bem-sucedidas
na região, isto permitiria especular que o reconhecimento
do alinhamento, afinal, ainda não era considerado
como uma vantagem competitiva significativa. Compilados
os dados dos questionários e das entrevistas da
pesquisa, verificou-se que a suposição estava
longe de confirmar-se. Foram encontrados claros indícios,
colhidos das variáveis pesquisadas, que indicam
uma sinergia nas definições das ações
estratégicas envolvendo executivos de gestão
e de informática, de tal forma a colaborar positivamente
para o alinhamento dos investimentos em TI com os demais
investimentos da organização. Os profissionais
das maiores organizações gaúchas
da amostra reconhecem unanimemente a convergência
dos investimentos segundo a macro proposta das estratégias
empresariais. Não percebem dicotomia evidente entre
as designações para TI e as demais. A evolução
do pensamento gerencial, entre as empresas consultadas,
que pôde ser aquilatado pelas entrevistas, já
abarca o alinhamento, e além desse, o uso da TI
como um fator crítico para moldar a estratégia
empresarial. Nas análises realizadas, decorrência
dos instrumentos utilizados na pesquisa, colheu-se a percepção
dos profissionais quanto ao tema. Até que ponto
tais percepções, de fato, retratam a realidade
operacional de suas organizações não
foi razão de avaliação. Teria sido
necessário ir além para afiançar
tal relacionamento. Na segunda parte deste artigo serão
apresentados em detalhes os resultados do instrumento
de pesquisa.